Dor patelofemoral: a patela vai pra fora ou a coxa vem pra dentro?

 

 

 

 

 

 

Afinal de contas, em quem tem condromalácia ou dor patelofemoral, é a patela que desliza para fora ou a coxa que roda pra dentro ao se movimentar?

 

A patela é o pequeno osso que temos à frente, compondo a articulação do joelho. Ao dobrarmos ou esticarmos o joelho, ela desliza pela tróclea femoral, que é a "ranhura" no fêmur, que funciona como um trilho para a patela.

 

 

Para o desenvolvimento da condromalácia patelofemoral ou da dor patelofemoral (também chamada de dor anterior do joelho, ou  "joelho do corredor" dada sua frequência nos praticantes de corrida) uma das hipóteses mais cogitadas (mas não confirmadas) é a de que a patela deixa de deslizar adequadamente, indo muito para um dos lados e, dessa forma, chocando-se contra a tróclea, aumentando o atrito e desgastando a cartilagem que recobre tanto a superfície da patela, quanto da tróclea.

 

A princípio, duas possibilidades poderiam explicar esse deslizamento inadequado da patela em relação à tróclea. A primeira é a de que, por alguma razão (não nos focaremos nos mecanismos mais detalhados, citaremos como exemplo a hipótese de que um músculo puxa a patela mais para um lado que para o outro) a patela vai mais para fora quando se dobra ou estica o joelho, saindo de seu trajeto sobre a tróclea. Isso seria possível de acontecer. De fato, o estudo de FELICIO ET (2012) sugere que as pessoas com dor patelofemoral tendem a apresentar, quando o joelho está dobrado a, aproximadamente 15 graus uma relação entre tróclea mais rasa e maior angulação da patela ("patellar tilt" - tanto em repouso como ao se realizar força em CCA ou CCF) e entre a tróclea mais rasa e o maior deslizamento lateral da patela durante a contração muscular (em CCA e CCF). Ou seja, aparentemente, este estudo traz dados que parecem ajudar a confirmar essa hipótese. Porém, esse estudo foi feito somente em mulheres e as atividades e avaliações foram feitas em decúbito dorsal (deitado de barriga para cima), de forma que não se pode extrapolar as informações encontradas para situações "em pé".

 

A segunda possibilidade pra se explicar um possível deslizamento inadequado da patela em relação à tróclea é aquela em que ocorreria uma rotação da coxa em relação à perna (em termos técnicos, é uma rotação lateral da perna, ou uma rotação medial do quadril em relação à perna). Essa hipótese se justifica pois a patela é fixada à tíbia (osso da perna) e ao fêmur (pelo quadríceps, que também se fixa à bacia), de forma que qualquer movimento de rotação da perna em relação à coxa ou vice-versa interfere com o posicionamento da patela em relação à tróclea femoral, especialmente se essas rotações ocorrerem durante os movimentos de dobrar ou esticar o joelho.

 

E o que o estudo de SOUZA et al (2010) nos mostra é que isso realmente acontece em quem apresenta dor anterior de joelho, na comparação com quem não tem dor. Pelo, menos, em mulheres, afinal este estudo foi feito somente nelas, durante o movimento do agachamento unipodálico. E, em contraste ao estudo de FELICIO ET (2012) o qual foi feito com os participantes deitados, foi realizado com os participantes realizando o movimento de agachamento com um pé só (de fato, o outro pé tocava o chão apenas para dar equilíbrio). E foi encontrado um maior deslizamento lateral da patela (maior à medida em que o joelho se estende, mensurado pelo "bisect-offset") e rotação medial do quadril nas pessoas com dor (o grupo com dor tinha praticamente o dobro de rotação medial), sendo que os autores relataram inclusive que os dois parecem correlacionados, ou que o maior deslizamento lateral ocorre devido à maior rotação medial. O tilt lateral da patela também foi maior, especialmente à medida em que se estendia o joelho. Não houve diferenças na rotação da patela (mensurada entre uma linha paralela ao campo da imagem e a linha ligando as bordas medial e lateral da patela) de forma que o tilt ocorria devido ao movimento do fêmur em relação à patela, de certa forma em concordância com POWERS et al (2003) que definem o movimento em CCF como "fêmur rodando ao redor da patela", num estudo feito com indivíduos que sofriam de subluxação patelar.

 

De fato, parece mesmo que indivíduos (mulheres, pelo menos, pois em ambos os estudos foram avaliadas somente mulheres) apresentam uma tendência da patela ir lateralmente para fora de seu trajeto nas pessoas com dor em relação àquelas sem dor e isso parece acontecer quer quando o pé está apoiado (CCF) ou não (CCA). Porém, é importante destacar que, pelo menos com base nestes estudos analisados, não podemos afirmar que isso seja uma causa da condromalácia ou da dor patelofemoral, mas simplesmente que parece estar presente nas pessoas com esse tipo de condição. Eles podem ser causa, mas para isso é necessário um outro tipo de estudo, chamado de estudo prospectivo, no qual pessoas sem qualquer problema são avaliadas e acompanhadas ao longo do tempo e depois é feita a análise daquelas que desenvolveram a lesão com as que não desenvolveram para se identificar os fatores que podem ter favorecido ou "causado" a lesão.  

 

 

 

 

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